PRÓLOGO
Onde o invisível começou a se formar
O mundo não mudou de repente. Não houve catástrofes anunciadas, nenhuma ruptura histórica que pudesse ser apontada como início. As cidades permaneceram acesas, os passos seguiram rotas conhecidas, decisões foram tomadas e promessas quebradas como sempre haviam sido. Ainda assim, algo começou a existir entre aquilo que se vivia e aquilo que era necessário sustentar para que a vida continuasse.
No começo, era apenas uma diferença sutil, quase imperceptível. Um peso sem nome, um cansaço que repousava sobre os ombros sem origem clara, uma tensão silenciosa que nenhum descanso poderia dissipar. Era a distância entre o que se sentia e o que se mostrava; entre o que se desejava e o que se fazia; entre o que se era e o que se tornava necessário ser. E essa distância não se esvaiu. Acumulou-se.
Com o tempo, o acúmulo ganhou densidade. Pessoas que jamais haviam se encontrado começaram a relatar experiências semelhantes — não como prodígios ou delírios, mas como imagens insistentes em sonhos, pensamentos intrusivos ou sensações difíceis de nomear. Falavam de lugares que pareciam espelhos imperfeitos da realidade, de espaços conhecidos deslocados, onde tudo parecia ligeiramente fora de alinhamento. Não era magia, não era tecnologia. Era a consciência humana se projetando sobre si mesma, acumulando aquilo que não podia ser vivido.
Assim nasceu o Campo dos Reflexos.
Não era território físico, nem fenômeno sobrenatural. Era, antes, uma sobreposição invisível: uma estrutura formada pelas tensões não resolvidas, pelos desejos contidos, pelas identidades parcialmente sustentadas. O Campo não substituía a realidade; acompanhava-a. Absorvia o que não encontrava espaço no mundo concreto. Funcionava como espelho acumulativo, refletindo escolhas não vividas e sentimentos retidos, organizando-os em padrões silenciosos.
Esses padrões não eram caóticos. Com o tempo, começaram a estruturar-se, adquirindo coerência própria. Formaram-se arquiteturas internas, maneiras de permanecer inteiro mesmo sob fragmentação. Nasceram então as Personas. Não máscaras, não papéis sociais; sustentação. A Persona era resistência. Era equilíbrio entre o que se era e o que se precisava aparentar ser.
O mundo externo continuava inalterado aos olhos comuns, mas suas consequências eram perceptíveis. Relações se rompendo sem razão aparente. Pequenas decisões desencadeando efeitos desproporcionais. Mudanças internas refletindo-se em atos cotidianos, ainda invisíveis, ainda inexplicáveis. Nada transbordava para o mundo com estrondo; tudo reverberava de maneira silenciosa, mas inexorável.
À medida que o Campo crescia, as interações entre suas estruturas geravam tensões adicionais. Quando duas Personas de princípios incompatíveis se aproximavam, os impactos reverberavam na realidade concreta. Conflitos inevitáveis, escolhas irreversíveis. E ainda assim, tudo parecia plausível.
Foi nesse estágio que surgiram as primeiras tentativas de compreensão sistemática. Não para dominar o Campo — ele não podia ser controlado — mas para impedir que as tensões acumuladas provocassem colapsos irreparáveis. Uns temiam que intervir violasse o processo natural da consciência; outros temiam que a ausência de intervenção levasse o mundo à instabilidade.
Independentemente das discordâncias, o Campo continuou a se expandir. Não era erro nem falha; era consequência inevitável da própria consciência humana tentando sustentar-se. Muito antes de qualquer nome, muito antes de qualquer contenção, o Campo já existia. E as Personas continuaram a emergir — não exceções, mas reflexos naturais de uma realidade que exige estabilidade enquanto acumula fraturas.
O Campo não foi criado.
Ele tornou-se inevitável.
E, uma vez inevitável, passou a influenciar tudo.
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